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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

AUTÔMATO

Por Jonatas Rubens Tavares

Entrevista de emprego em um futuro não tão distante:

-Pelo que vejo em seu Currículo, o senhor preenche todos os requisitos necessários para ocupar o cargo. A sua porta USB...?

O candidato abaixou a gola da blusa, deixando à mostra, no lado esquerdo do pescoço, a entrada USB, que, na altura da jugular, se projetava para fora da carne.

-Ótimo - O entrevistador sorria amigavelmente - É através dela que baixaremos para o seu HD o programa com todas as instruções necessárias para que possa desempenhar devidamente as funções do cargo. Será instalado também o Freio, que bloqueia o funcionário em casos de ações não condizentes com a função ou com as normas estabelecidas pela empresa. O seu Sistema Operacional, está, imagino, atualizado?

-Sim senhor, tudo certinho.

-Magnífico. Dirija-se ao RH que, concluída a parte documental, lhe encaminharão á TI. 

Parabéns, e seja bem-vindo à equipe.

-Obrigado senhor.

ONDE FOI PARAR O JARDINEIRO?

Por Jonatas Rubens Tavares

O jardim, que sempre fora muito bem cuidado, agora estava em lamentável estado de abandono. O dono da propriedade recusava-se a procurar os serviços de outro que não fosse o seu bom e velho jardineiro.

-Onde foi parar o jardineiro?

Fazia já algum tempo que o funcionário havia simplesmente desaparecido. A polícia iniciou uma investigação. Mas nada: Nem mesmo a família foi capaz de oferecer pistas que levassem a algum lugar.

-Onde foi parar o jardineiro?

Foi o chofer quem primeiro teorizou: “A recém-falecida esposa do amigo jardineiro vinha quase sempre quando o sol estava prestes a se pôr, sentava naquele banco próximo ao balanço e ficava esperando pelo término do horário de trabalho do marido. E em todos os dias, sem exceção, ele colhia uma flor e entregava à esposa. Talvez o homem não tenha suportado as recordações.”

-Onde foi parar o jardineiro?

Não conseguiram descobrir, mas ao menos souberam porquê (por quem) ele havia desaparecido.



A MALDADE

Por J. Paulo

Ninguém se recorda de quando a maldade chegou. Na verdade a maioria nem mesmo se deu conta que ela foi se depositando em todos os lugares. Nas ruas, nas paredes dos prédios, adentrando pelas casas. Como uma poeira que toma conta de tudo, até do ar que respiramos.

Naquele final de dia a vendedora estava se sentindo muito feliz. Suas metas já tinham sido batidas, a patroa tinha lhe feito um elogio e tudo o mais lhe sorrira. Ela até separara um pequeno presente para levar para o filho, que nesta hora já estava com o avô. Moravam os três num pequeno apartamento ajustados e ajustando-se com o que a vida tinha lhes dado. 

A jovem se atrasara um pouco para sair, por isto decidira tomar um ônibus numa avenida cerca de três quadras mais distante. E se ainda cortasse o caminho por uma ruazinha transversal, chegaria em tempo de pegar uma condução que a deixaria bem perto de seu prédio, recuperando então o tempo.

A maldade pode tomar muitas formas e jeitos. Pode vir de modo claro e 
violento; mas também pode ser sutil, suave, quase misteriosa.

Os três rapazes não eram mais do que uma sombra única, naquele terreno baldio, imerso na escuridão. Conversavam baixinho, com os rostos bem perto uns dos outros. 

A maldade não discrimina ninguém: homem ou mulher, velho ou criança. Ela apenas cumpre seu papel aos cuidados de quem a manipula.

A mulher que vinha pela rua atraíra o olhar  dos rapazes desde o momento que virara naquela esquina, muito pouco pela graça e beleza de seu caminhar, muito mais pela bolsa que carregava. 
Naquele horário a ruazinha era bem deserta, com casas pouco iluminadas
e voltadas para si. A nossa pergunta será sempre a mesma: por que tanta maldade?

O fato é que o primeiro golpe atingiu violentamente a cabeça, e que os outros tão certeiros não foram nem menores ou menos mortais. A única possível testemunha disse para a polícia que não conseguiu ver nada, pois assim que ouviu os barulhos e gritos saíra correndo, muito amedrontada. Ela passara por ali somente para conseguir alcançar sua 
condução. Também não conhecia nenhuma das três vítimas mostradas a ela por 
fotografia. O policial lhe relatara os possíveis detalhes da luta infrutífera dos três 
rapazes. E a vendedora perguntou: por que tanta maldade, doutor?


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O CALHORDA

Por Gerson Dalla Corte

Não me ajude, não me ajude! Sei levantar sozinho. A não ser que eu escorregue nessa poça de vômito e sangue. Aí, sim, vou precisar de ajuda.
Pronto, tô de pé. Não, a culpa não foi minha. Eu tava aqui, bebendo tranquilamente minha pinga, quando me escorregou a garrafa na cabeça dele. Escorregou só isso. Embora ele tenha merecido.
Mas no fim, o que aconteceu? Por culpa dele um caco entrou no meu dedo, olha só. Daí todo este sangue esparramado. A cabeça dele, partida em duas, não foi nada. O sangue é todo do meu dedo, ó! E o pior, minha pinga se foi pelo chão. Aquele cão ali no canto que bebeu tudo.
Não me ajude, já falei! Vai me contaminar com a sua sujeira. Já não bastam minhas roupas vomitadas...sabe que sou muito suscetível, qualquer gotinha de sangue e passo mal, tonturas, sabe como é. Que bêbado que nada! Vomitei pela minha sensibilidade excessiva.
Essa carteira? Pois então, como ele deu uma cabeçada na minha garrafa e furou meu dedo, exigi reparação de danos. Foi na verdade uma doação que ele me fez, olha só a cara dele, de bruços, arrependido, como se estivesse morto. Arrependa-se de seus pecados!
Não, não preciso de ambulância. E deixe a polícia fora disso! Fique tranquilo, bem tranquilo, que tudo vai ficar bem. Só preciso de uma pinga pra me acalmar. Só uma pinga, só uma pinga...



PAI E FILHA

Por Gerson Dalla Corte

Você mentiu pra mim. Disse que voltaria. E te esperei. Anos a fio.  Foram anos, foram vidas.
Promessas não se quebram. Você não voltou, então vim te encontrar.
A velhice talvez já não seja tão ruim. Estamos mais pertos de quem já foi. Vim te encontrar, mas não sei o que me espera. Talvez o nada, ou outra vida. Quem sabe a mesma, novamente, com pequenas variações?
Penso que a morte talvez venha para poupar-nos de algo pior. A morte como um começo, ou um meio. Esta vida, para mim,  foi onírica. Ora um sonho, ora um pesadelo. Espero que a morte seja o amanhecer da minha vida.
Vou acorder, enfim.



COMPANHEIRO DE AVENTURAS

Por Jonatas Rubens Tavares

Pai e filho sempre davam longos passeios. Quando o pai adoeceu, os passeios cessaram. O filho, ainda menino, ficou sem o seu companheiro de aventuras, sem o seu herói. Naturalmente, o garoto sentiu falta do seu genitor. A mãe, então, entregou-lhe a carta deixada pelo falecido:

“Filho, 
O meu tempo por aqui se encerrou. Esta é  a minha despedida. Espero que entenda que não é da minha vontade partir, mas tenho que ir, porque é assim que funciona a vida. Fui sozinho para o passeio definitivo.
Deixei esta carta para te dizer o que só  vai compreender quando for mais velho, por isso guarde-a para que possa lê-la mais tarde.
Meu filho, você, sozinho, irá trilhar caminhos novos, longe das rotas por nós percorridas e chegará infinitamente mais longe do que seu velho pai foi capaz. Irá realizar o percurso sozinho até que consiga um pequeno para acompanhá-lo. Mas lembre-se sempre que, embora não possa me ver, estarei sempre ao seu lado, junto, a cada passo, porque no fim o caminho é um só e o destino é o mesmo.
Te amo, filho querido. Recorde com carinho e nostalgia as nossas tardes, as nossas caminhadas, que foram únicas. Obrigado por ser o MEU companheiro de aventuras. Nunca a jornada foi tão divertida e recompensadora quanto foi ao seu lado.

                                                                                                                          Papai.”

Agora, crescido, o não tão menino relê  a carta e guarda-a, com todo o cuidado, dentro de um pequeno baú. E parte para a caminhada vespertina com o SEU companheiro de aventuras.



terça-feira, 6 de agosto de 2013

CINCO PALAVRAS ABOMINÁVEIS

Por Gerson Dalla Corte

- Fiz uma coisa abominável.
- Você? Estou pasmo!
- Fiz, confesso. Foi inenarrávelMais precisamente, foi escatológico.
- Não creio! E o que foi que você fez de tão terrível?
- Você nunca poderia imaginar. Foi aterrador.
- Fala logo! Cometeu um crime? Matou alguém?
- Não. Comi a empada.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

MEU QUERIDO HAPPOO

Por Ricardo Dos Santos

         Meu querido Happoo.

         Você me perguntou uma vez se eu lhe contara tudo o que havia para se saber sobre minhas aventuras. Bem, eu posso honestamente dizer que lhe contei a verdade, mas posso não ter lhe contado toda ela.
         Estou velho agora, Happoo. Não sou mais o elfo que fui um dia. Acho que é hora de você saber o que realmente aconteceu.
         Começou há muito tempo atrás em uma terra muito distante daqui. O tipo de lugar que você não encontra no mundo hoje. Antes da construção da cidade de Olnult, capital de todo o reino, havia uma grande vila no continente gelado. Uma vila onde viviam em paz todas as raças. Homens carpinteiros andando a cavalo, elfos com seus artesanatos baratos e suas ervas malucas, meio-orcs fazendo malabarismo nas ruas e gnomos cantando e se prostituindo - a maioria deles é bixa, querido sobrinho. São muito gente boa, mas bixas. Não posso me esquecer dos anões martelando e fundindo metal para criar armas mortais capazes de arrancar a cabeça de um elefante apenas com um golpe, além de lindas e encantadoras bijuterias. 

         Nessa vila cresceu um menino órfão,  mas não era um menino qualquer. Seu nome era Suhtrak. Alguns diziam que o menino era filho de dragões e, por uma maldição antiga, estava preso a uma forma humana.
         A idade de Suhtrak era desconhecida. Ele foi encontrado ainda criança e continuou nessa fase por muitos anos além do normal. Isso fazia com que os pais das outras crianças tivessem medo dele e não deixassem que seus filhos brincassem com o garoto. Além disso as lendas em torno do menino alimentavam gozações e piadas sobre a sua idade. Existia o boato de que se alguém descobrisse a idade do menino ele mudaria para a forma de dragão e concederia uma recompensa ao descobridor, por tê-lo libertado de sua forma amaldiçoada. Mas isso nunca aconteceu e menino cresceu sozinho enfurnado nas bibliotecas, em meio a pergaminhos, livros, runas e cristais arcanos, se especializando e aprendendo tudo sobre magia.
        Após mais de 200 anos ele chegou a fase adulta, esqueceu as mágoas do passado e se tornou um grande mago. Para simbolizar essa mudança e mostrar que realmente não guardava más recordações do povo da vila ele mudou seu nome e ficou conhecido como Karthus, o Velho. Karthus atuou durante muitos anos ajudando os cidadãos e protegendo a vila de ameaças externas, principalmente do lado de fora da muralha.
        Mas um dia algo terrível aconteceu.
        Um dragão ancião chamado Thuulak veio a vila e a destruiu quase que por completo. Na tentativa de salvar as pessoas, Karthus acabou morrendo. O dragão se transformou em homem e, através de um ritual de necromancia, fundiu seu espírito ao corpo de Karthus e se transformou em uma criatura que devastava tudo por onde passava. A terrível besta assolou todas as terras transformando tudo que era vivo e cheio de cores em um triste deserto repleto de fogo e sofrimento. Homens, elfos, gnomos, anões, meio-orcs e todas as outras raças, inclusive do Forgotten Realms, se tornaram escravos da ira da criatura.
         Em meio a essa desgraça um pequeno grupo formado por druidas, magos e um paladino se reuniu para tentar drenar o poder da fera. Para tal eles reuniram essências das principais raças: um fio de cabelo de um elfo, o sangue derramado de um homem em uma batalha, o dente de um anão quebrado por sacrifício, a unha de um orc arrancada pela justiça e o sorriso de um gnomo que há muito tempo não lembrava o que era felicidade.
         Através desses elementos Malfurion, o mais poderoso mago do grupo, conseguiu criar um artefato poderoso, capaz de absorver muito poder e guardá-lo por muito tempo sem problemas. Esse artefato se chamava Silmir.
         Numa batalha de meses o grupo conseguiu banir o espírito do dragão ancião para outra dimensão e libertar o corpo de Karthus, que, após alguns meses desacordado, conseguiu voltar a vida.
         O poder do dragão foi colocado na Silmir e, para manter o poder selado e sem risco de ser libertado novamente, ela foi quebrada em 20 pedaços, que foram distribuídos a representantes das três raças principais. Três pedaços para os Reis dos Altos Elfos da Luz. Nove para os Homens Mortais, que choraram ao receber os pedaços pois eles representavam seu povo livre. Sete pedaços para os Anões, que os guardaram em seus salões de pedra, nas montanhas. O ultimo pedaço, a parte central da silmir, era também a parte principal, e muitos acreditavam ser a única parte da joia Ela era a unica respondia à chave da Silmir e tinha o poder de localizar os outros fragmentos. Este pedaço ficou com Malfurion, que nunca mais foi visto.
         Após anos de prosperidade e paz os cidadãos da antiga vila se espalharam pelo Continente Verde e o Continente Seco, fundando as principais cidades e vilas que conhecemos hoje. Karthus sentiu medo do que seu poder era capaz, então criou uma torre mágica no Continente Verde, de onde evitava sair para não expor mais ninguém aos riscos de sua magia.
         Foi aí, meu querido Happoo, que eu entrei. Pois um pouco pelo acaso e pelo desejo de um mestre, o destino decidiu que eu deveria fazer parte desse conto. Mas eu não estava sozinho. Tinha comigo companheiros valentes, pontuais, dispostos a ajudar o grupo, sóbrios e, acima de tudo, unidos.
         Nunca me esqueço daquele dia. Uma bela madrugada de sexta para sábado quando eu (seu velho tio Veidth), um simpático e confiante mago meio-elfo, um valente e acordado homem guerreiro, um anão sóbrio e atento, um gnomo bardo (heterossexual) que era pontual e nunca se atrasava para nenhuma reunião e, talvez, um outro gnomo druida muito velhinho que nós conhecemos por aí, nos reunimos para buscar a Silmir. Ah, também tínhamos um outro companheiro, mas eu nunca o vi de verdade. Era uma voz que gritava do céu. As vezes falava comigo coisas do tipo: “rola um d20” ou “tu não conseguiu e os dois guardas tão vindo na tua direção”. Realmente uma figura encantadora mas muito enigmática.
         Tudo começou. Bom, começou como você deve imaginar. Numa toca debaixo da terra vivia um Halfling. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de minhocas e com cheiro de mofo. Era a toca de um Halfling. E isso significa: comida, uma lareira quente e todo o conforto de um lar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

CANÇÃO DOS CAMPOS DOS LÍRIOS

Por Walter M. Ziebarth


— Me parece um excelente dia para cavalgadas, Ron! — disse Lydia, convidativa.
­— Sim! É sim, querida!  — respondeu Ron, vestindo-se. — E nossos cavalos já nos esperam.
Lydia esboçou um sorriso e começou a vestir-se. Pela janela, admirava a paisagem: o sol da meia-manhã, os pássaros, a grama verde, tudo tão lindo como nas canções dos bardos. Ela imaginava se algum dia fariam canções sobre os dois. Uma canção que descrevesse o amor entre eles. Seria a mais bela das canções! — pensava.
— Eu, realmente, não sei o que fiz pra merecer você, sabia? — confessou Lydia.
Ron sorriu.
— Não seja tola, Lydia. Quem diria que ao meu lado você iria ficar. Você que me faz feliz.
— E você me faz cantar. — replicou Lydia.
Ron aproximou-se e beijou-lhe os lábios. Naquela hora ela soube o quão feliz era e que nada poderia impedi-los de ficarem juntos pelo resto da vida.
Do lado de fora, o cavalariço aguardava o casal com as rédeas em mãos.
— Bom dia, Senhor. Milady. — cumprimentou o cavalariço.
— Bom dia, Edward. — assentiu Ron.
Apesar do sol, fazia frio, assim como todos os dias. Ron ajudou Lydia a subir em um dos cavalos e então subiu em seu próprio.
— Boris não irá acompanhá-los hoje, Senhor? — perguntou Edward.
— Não. Boris está com a família. E, aliás, devia fazer o mesmo, Edward. Ninguém trabalha no Dia dos Deuses.
— Gosto de servir-lhe, Senhor. Mas se for de seu agrado, irei ficar com minha famí­lia.
— Faça isso.  — respondeu Lydia — Somos adultos, Edward, sabemos nos virar so­zinhos.
Cavalgaram por horas. Passaram por montes, bosques e serranias até chegarem à beira do rio. Os cavalos bebericaram ou pouco de água e estavam prontos para partir novamente.
— Está com fome, querida? — Perguntou Ron.
— Um pouco, talvez fosse bom pararmos por aqui e voltarmos, o que acha?
— Concordo.
Os dois então partiram. Ron queria levá-la ao Campo dos Lírios, lugar onde deram seu primeiro beijo e onde Ron planejava pedi-la em casamento, mas, por insistência de Lydia, retornaram ao caminho original. Atravessaram o bosque e os montes até avistarem de longe a casa de Ron. Uma bela casa, diga-se de passagem. Possuía três grandes andares e um jardim era impecável.
Ao longe, Lydia avistou um grupo de homens a cavalo vindo em sua direção. Olhou pra Ron e viu que ele parecia preocupado.
— O que queres em minhas terras, Jared?
         Jared era um patife. Apaixonado por Lydia desde garoto vivia importunando o casal. E, dessa vez, parecia ter exagerado na bebida.
            — Vim lutar por ela. — disse. — Eu te amo, Lydia. Amo como jamais alguém amará.
            — Cale-se! — Repreendeu Ron.
— Você está bêbado, Jared. Volte para casa. — aconselhou Lydia.
— Eu vim lutar por você e é isso que eu vou fazer.
Jared pulou do cavalo, meio desajeitado, e foi pra cima de Ron. Estava desarmado e tropeçava nos próprios pés.
            — Não vou lutar com você, Jared. Não nesse estado. — disse Ron descendo do cavalo.
           Mas o patife nem sequer parou pra ouvir, investiu um soco logo após Ron tocar o chão. Ron desviou e o punho de Jared passou ao seu lado encontrando nada mais que o ar. O bêbado tropicou e caiu ao chão.
                Dois capangas de Jared então resolveram agir. Lydia não fazia ideia de quem eram.
Um era mais baixo e entroncado; o outro era esguio e ambos partiram pra cima de Ron.
                O baixinho agarrou Ron pelas costas enquanto o mais alto socava-lhe o rosto e o abdômen. Lydia começou a implorar que parassem, mas ninguém a deu ouvidos.
            — Vá, Lydia. Saia daqui. — gritou Ron.
           — Não! — berrou ela partindo pra cima dos capangas. Lydia pulou nas costas do que socava Ron e mordeu-lhe a orelha. O homem soltou um berro de dor e então derrubou Lydia.
                Ron era forte e desvencilhou-se do gordo, virou, socou-lhe o rosto e procurou o magrelo. Então os três começaram a trocar socos e pontapés.
Enquanto isso, Jared levantou-se do chão e foi até Lydia, agarrou-a pelo braço e a levantou.
— Solte-me, Jared. Deixe-nos em paz, por favor!
— Você é minha, Lydia. MINHA! — Gritou.
Ele a levou para dentro do estábulo, deu-lhe um tapa no rosto e a jogou ao chão.
— Fique aqui, não quero que veja seu amado morrer. — disse Jared. — Viu como eu tenho consideração por você, minha querida? — segurou o queixo dela — Sabe por quê? Porque EU TE AMO! — gritou mais uma vez. Quando se virou, Ron estava logo atrás dele, assustou-se e tomou um soco no rosto que o fez cair no chão.
Ron levantou Lydia e os dois seguiram em direção à saída. Foi quando Ron sentiu uma dor aguda rasgando-lhe as costas, olhou pra baixo e viu três hastes de metal atravessarem seu abdômen. Lydia gritou desesperadamente. Jared arrancou a forquilha e Ron caiu no chão, estava morto.
Lydia caiu de joelhos, aos prantos. O ódio subiu-lhe a cabeça. Desejou tê-lo matado, desejou de todo coração. Estava bem ali, bem na sua frente, o assassino de Ron, seu amado. Mas nada podia fazer, estava fraca, indefesa e coisa alguma o traria de volta. Pôs-se a pensar porque demônios, no Dia dos Deuses, Eles tinham que levá-lo, se nada haviam feito além de amado demais. E não mais que os Deuses pra saberem que amor no coração dos homens é dádiva, e dádiva não se castiga.
— Viu o que você me fez fazer, Lydia? Viu?
Jared largou a forquilha no chão, assustado, e saiu correndo.
Lydia deitou-se sobre o corpo morto de Ron abraçando-o na tentativa inútil de que ele sentisse e devolvesse o abraço, mas ele se fora, seu amado morrera e nada pudera fazer.

*** 

O tempo passou, quinze invernos para ser exato, e Lydia jamais esquecera Ron, nem por um dia sequer. Tentou seguir em frente, apaixonar-se novamente, mas não conseguiu. Parecia que seu coração estava acostumado com a solidão e, também, já não estava mais na da idade de se casar. Estou velha – pensava. Ninguém mais me quer, e quem me quer não me agrada. Malditos sejam os Deuses!
Há algum tempo ela vinha sonhando com Ron, sempre o mesmo sonho. Ele no alto de um desfiladeiro, chamando-a. Lydia sabia que lugar era aquele, ficava nas terras do Ron, logo após a serrania seguindo o riacho.
Lydia acordou assustada.  O mesmo sonho lhe importunava. Vestiu o primeiro vestido que viu e saiu decidida a encontrá-lo no alto do desfiladeiro. Subiu em seu cavalo, e galopou até as terras de Ron. Passou pelos montes, bosques e serranias até encontrar o riacho. Seguiu o fluxo da água e lá estava o desfiladeiro, mas não havia ninguém.
Tola! O que eu tinha em mente? Ron se foi e jamais vou vê-lo novamente. — Pensou.
Lydia seguiu até a beirada do penhasco.
A não ser que... Oh! Não! Pelos Deuses, o que eu estou pensando? Isso não resolveria nada. Lydia fechou os olhos e viu Ron, ele sorria para ela e abria os braços esperando um abraço.
Quem diria que ao meu lado você iria ficar. Você que me faz feliz. Você me faz cantar.
Quando Lydia abriu os olhos estava sentada no meio do Campo dos Lírios, não estava frio nem quente, um clima agradável e uma sensação de paz. Uma sensação que jamais sentira. Viu Ron se aproximando de braços abertos, caminhando por entre os lírios.
— Oh, Ron. Ainda bem que eu te encontrei.
— Calma, querida. Agora você chegou, tudo se transformou, você veio pra ficar.
— Ninguém mais pode nos separar, Ron. É você que me faz feliz.
— E é você que me faz cantar.

Fim.
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*Conto inspirado na canção Ainda Bem de Marisa Monte.