quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A MALDADE

Por J. Paulo

Ninguém se recorda de quando a maldade chegou. Na verdade a maioria nem mesmo se deu conta que ela foi se depositando em todos os lugares. Nas ruas, nas paredes dos prédios, adentrando pelas casas. Como uma poeira que toma conta de tudo, até do ar que respiramos.

Naquele final de dia a vendedora estava se sentindo muito feliz. Suas metas já tinham sido batidas, a patroa tinha lhe feito um elogio e tudo o mais lhe sorrira. Ela até separara um pequeno presente para levar para o filho, que nesta hora já estava com o avô. Moravam os três num pequeno apartamento ajustados e ajustando-se com o que a vida tinha lhes dado. 

A jovem se atrasara um pouco para sair, por isto decidira tomar um ônibus numa avenida cerca de três quadras mais distante. E se ainda cortasse o caminho por uma ruazinha transversal, chegaria em tempo de pegar uma condução que a deixaria bem perto de seu prédio, recuperando então o tempo.

A maldade pode tomar muitas formas e jeitos. Pode vir de modo claro e 
violento; mas também pode ser sutil, suave, quase misteriosa.

Os três rapazes não eram mais do que uma sombra única, naquele terreno baldio, imerso na escuridão. Conversavam baixinho, com os rostos bem perto uns dos outros. 

A maldade não discrimina ninguém: homem ou mulher, velho ou criança. Ela apenas cumpre seu papel aos cuidados de quem a manipula.

A mulher que vinha pela rua atraíra o olhar  dos rapazes desde o momento que virara naquela esquina, muito pouco pela graça e beleza de seu caminhar, muito mais pela bolsa que carregava. 
Naquele horário a ruazinha era bem deserta, com casas pouco iluminadas
e voltadas para si. A nossa pergunta será sempre a mesma: por que tanta maldade?

O fato é que o primeiro golpe atingiu violentamente a cabeça, e que os outros tão certeiros não foram nem menores ou menos mortais. A única possível testemunha disse para a polícia que não conseguiu ver nada, pois assim que ouviu os barulhos e gritos saíra correndo, muito amedrontada. Ela passara por ali somente para conseguir alcançar sua 
condução. Também não conhecia nenhuma das três vítimas mostradas a ela por 
fotografia. O policial lhe relatara os possíveis detalhes da luta infrutífera dos três 
rapazes. E a vendedora perguntou: por que tanta maldade, doutor?


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